Quando voltei a enxergar.

Hoje quando abri os olhos, não vi nada. Era um breu impetuoso e ausente, tão pegajoso que ao respirar pela primeira vez fui capaz de sentir o gosto do medo.

Tateei o chão, meus dedos foram cobertos por uma espécie de lama arenosa e úmida. Aos poucos fui tentando me erguer, escorreguei algumas vezes antes de conseguir finalmente me colocar em pé, passo a passo, com a mãos esticadas a frente, inevitavelmente de olhos abertos, mesmo tendo a consciência de que não conseguiria ver nada além do escuro.

Mais dois passos, minhas mãos bateram doloridas em algo áspero e consistente, uma parede de pedras talvez, ou poderia ser uma rocha gigante. Assim que os latejos dos meus dedos silenciaram, pude ouvir com mais atenção, havia um som contínuo e irregular, esse barulho eu reconhecia até de olhos vendados, eram gotas. Isso explicava a umidade no chão, e também fazia com que o palpite de ter batido em uma rocha fizesse todo sentido do mundo, pelo menos na minha mente criativa e cega. Foi só depois de me levantar que comecei a perceber o gotejar, mesmo tateando a enorme pedra não conseguia descobrir de onde vinha a água, mas o ritmo só aumentava, os pingos eram cada vez mais constantes e intensos.

Eu estava molhada, passei a mão nos maus cabelos e pude sentir um líquido denso e pastoso escorrer por entre eles. Automaticamente levei as mãos a boca e nariz, pode sentir um cheiro quase asqueroso, uma mistura de sujeira e algo mais, demorei um tempo para ligar a memória com o nome, mas agora eu tinha certeza, era cheiro de ferro. Ferro. O que poderia ter ferro dentro deste lugar?

Não queria continuar a concluir este último pensamento, não queria que a resposta tivesse vindo assim de imediato, eu sabia, no fundo eu já sabia. Levei as mãos a minha barriga, pude sentir que ali minha blusa estava encharcada, fui deslizando os dedos delicadamente, sentindo aquele líquido viscoso e quente escorrer logo acima. Parei quando finalmente senti de onde vinha, era um corte, delicado e fundo, devia ter uns dez centímetros e havia sido feito bem no meio da minha cavidade torácica. Respirei fundo, não sentia dor alguma, e com toda a coragem que ironicamente me surgiu, segurei a abertura com minhas duas mãos, os dedos já estavam sentindo a carne quente e com um movimento brusco me despi daquela podridão. E foi só quando meu coração ficou a mostra que pude entender, eu estava sonhando e quando finalmente olhei para dentro, comecei a enxergar.

“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.” – Carl Jung

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