Faxina

De tempos em tempos precisamos fazer uma faxina geral em nossas vidas, uma limpeza completa.

Foram 27 anos com as cortinas fechadas, portas e janelas trancadas, móveis empoeirados e luz cortada.Ao abrir as cortinas, pude realmente ver o tamanho do abandono em que me encontrava. Eu já quase nem me lembrava das disposições dos móveis, da cor das paredes, do desenho do tapete estendido na sala.

Agora estava tudo cinza, os lençóis que cobriam algumas caixas, as paredes, o que antes eram azulejos, e até mesmo o chão. Cinza cor de sujeira.

Comecei pela cozinha, abri todos os armários, e um por um, os esvaziei. Em um deles encontrei um velho copinho de plástico, daqueles com canudinho embutido, eu amava tomar qualquer coisa nele, geralmente não estava com sede, mas eu bebia porque gostava da sensação que ele me trazia. Me despedi dele e coloquei-o em uma das caixas, meu velho copo de plástico agora já não me servia mais.

Passei o polegar sobre o mármore frio da pia, observei o rastro que ele deixava em meio a poeira e gordura acumuladas pelos anos. Lembrei das tardes em que ao invés de assistir sessão da tarde, estava exatamente em frente a essa mesma pia, picando legumes para mais tarde minha mãe cozinhar uma sopa para o jantar.

Olhei para o lado e reconheci o fogão, sem a tampa de vidro, um pouco mais enferrujado e praticamente de outra cor, pela sujeira. Uma vez eu estava na cozinha, quando meu pai sentou em uma das banquetas da mesa e brincando, começou a se balançar para frente e para trás, continuamente, até a banqueta começar a dar pequenos “trancos” e deslizar meio sem direção. Ele fez isso algumas vezes, até acertar em cheio o fogão, que estava com a tampa de vidro levantada. Foi um estrondo e muitos cacos de vidro espalhados por todos os cantos, minha mãe ficou uma fera com ele. Eu sorri com a lembrança, mas logo me detive, ainda havia muito a ser feito.

Logo atrás havia a mesa, uma espécie de bancada no meio da cozinha, onde eu havia soprado muitas velinhas de aniversário, inclusive nos meus doze anos. Eu estava visivelmente chorando, depois de ser injustamente enforcada pelo meu pai, tudo isso por conta de um CD que havia sumido em meio a festa, e claro, a culpa era sempre minha quando algo acontecia. Suspirei.

No quintal dos fundos não tinha muito mais do que sujeira, folhas secas por todos os lados, uma casinha de cachorro abandonada e meio apodrecida dava um ar um tanto asqueroso ao lugar. Nas prateleiras, algumas ferramentas velhas. No lugar da Camellia, agora jazia apenas uma raiz podre e decomposta.

Varri tudo devagar, pouco a pouco a cozinha estava tomada por um aglomerado de entulho ensacado, pronto para ir ao lixo.

Caminhei até a sala, senti um aperto no peito quando abri a cristaleira e encontrei todas as garrafas vazias. Corri os olhos pela escada e sem hesitar a cena se reconstruiu diante dos meus olhos. Meu pai caindo abaixo do terceiro degrau, rolando até o último, deslizando pra baixo do sofá e permanecendo ali desacordado até que eu arrombasse a porta. Chamaram a polícia, até hoje não consigo entender porque minha mãe não entregou a arma ilegal que ele mantinha em casa e que por vezes fomos ameaçadas. Por fim, foram 3 costelas trincadas e alguns dentes a menos. Sem falar na porta destruída e na vergonha alheia pela embriaguez.

Recolhi os poucos quadros que permaneciam na parede, uma a uma as garrafas foram deixadas para trás e mais sacos se enxiam.

Na estante, que ficava na parede oposta, encontrei o aquário vazio, onde antes uma criação de lebiste existia, agora apenas uma vida microscópica resistia.

Quando subi a escada uma leve vontade de chorar me ocorreu, mas a perdi assim que meus olhos focaram o carpete sujo e rasgado. Tentei abstrair o odor forte que vinha dele, e consegui assim que adentrei o primeiro quarto, o dos meus pais.

Estava tudo ali. A penteadeira, a cama baú, os criados mudos, o guarda roupa, o rack bambo que acoplava a televisão e a poltrona de vime de baixo da janela. Tenho que confessar que na minha memória era tudo mais vivo, agora nada mais tinha cor.

Fui para o segundo quarto, aquele que um dia tinha sido meu refúgio e por vezes minha morada particular. Nele ainda estava minha cama de solteira, meu armário, minha escrivaninha e meu gaveteiro. Dentro dele, revistas velhas, posteres e sonhos de uma criança triste. A janela ainda dava para a mesma rua de trás, a grade, colocada pela parte de dentro, ainda remetia a uma prisão. No teto haviam algumas estrelas grudadas, daquelas que brilhavam no escuro. Era para elas que eu olhava todas as noites antes de pegar no sono nada profundo.

Ao fechar a porta lembrei das vezes em que ao invés de dormir, ficava escutando conversas, na maioria delas nada agradáveis, sempre pronta para acudir e acabar com uma discussão. Uma vez cheguei a correr para o quarto deles, quando no lugar de vozes, ouvi choro e gritos. Flagrei meu pai agarrando minha mãe pelos cabelos, aos meus pés uma objeto, o que antes parecia ser uma aliança, agora não passava de um objeto inanimado. Eu tive vontade de bater nele, mas com meus 12 anos, respeito e 1,50 cm de altura, me contive em balbuciar algumas palavras. “Eu tenho nojo de você”, foi a frase que saiu rasgando minha garganta e que visivelmente desmontou a cena. Arrisco a dizer que até a bebedeira dele passou, tamanho desgosto ao ouvir aquilo.

O último cômodo era o banheiro, o box quebrado, azulejos imundos e poucas lembranças. Foi assim que me senti pronta, não só para me desligar de tudo aquilo, mas para realmente deixar tudo para trás.

No segundo que seguiu, pude ouvir o ronco de um motor, desci as escadas e pela janela opaca avistei um caminhão. Abri a porta e dei o sinal para que começassem a carregar. Um a um, os móveis foram sendo empilhados, e por fim as caixas junto aos sacos pretos contendo o lixo de anos. Carregado, o caminhão seguiu seu destino, e eu estava prestes a seguir o meu.

Mangueira, sabão, vassoura, panos e balde. Cômodo por cômodo fui lavando toda e qualquer lembrança. A água negra descia as escadas, molhava os tacos de madeira do chão da sala e escorria lentamente para o quintal da frente. Em poucas horas estava tudo limpo outra vez, azulejos brilhando, paredes manchadas pelo tempo e cheiro de renovação.

Recolhi minhas coisas e me despedi profundamente de tudo o que vivi ali. Deixando para trás, naquela água suja, toda e qualquer mágoa que impregnada no meu passado sombrio. Fechei o portão, corri os olhos pela vizinhança e finalmente pude dar adeus.

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9 Comentários

maio 7, 2013 · 7:18 pm

9 Respostas para “Faxina

  1. Je otte

    As vezes é preciso limpar a casa, arrumar as coisas para poder deixar chegar novas visitas!

    Te amo muito!

  2. Priscila N

    Eu me emocionei, nem sei mais o que dizer…

  3. Lídia Lodovici

    Lembrei que adorava ler seus textos. Gostei deste, parabéns!

  4. camila

    Chorei junto com você. Força!

  5. Rillyenne

    Nunca vi alguém, retratar a faxina da alma tão bem através das palavras.

  6. juliana reis

    lendo seu texto, lembro de algumas cenas semelhantes que presenciei em casa..sempre em época de Natal..
    e quando tive que fazer essa faxina, muito contra a minha vontade, limpei, escovei, pintei e quebrei paredes…mas as lembranças, essas levarei comigo, em algum lugar aqui dentro.
    parabéns pelo texto.

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